Artigo

Trazendo as mulheres de volta para as histórias

por Rodrigo Assis Mesquita

Postado em 26/09/2016


As mulheres compõem basicamente da população mundial, mas, na História, pouco aparecem. Em entrevista para o blog English Heritage, a historiadora Dra. Bettany Hughes explica que, na pré-História, de 40.000 A.C. até mais ou menos 5.000 A.C., vê-se que por volta de 90% das estatuetas produzidas representavam mulheres. O protagonismo masculino na História Ocidental é justificado pela necessidade de expansão que gera uma mudança de poder, pois a sociedade precisa de força muscular e se torna “militarizada”. Começam a aparecer deuses da guerra e épicos como Gilgamesh, a Ilíada e a Odisséia. O papel da mulher é diminuído nas sociedades em que os objetivos principais deixam de ser a sobrevivência física da comunidade e a qualidade de vida e passam a ser a expansão e o sucesso.

A Dra. Bettany Hughes afirma que um dos principais desafios dos historiadores é trazer as mulheres de volta para a História. Algumas mulheres ficaram famosas pela sua descrição hipersexualizada e por representarem um deturpado conto moral de sedução, de criaturas que atraíam os homens para a sua cama e para a morte. As mulheres não puderam ser retratadas como personagens, como protagonistas, e quando isso aconteceu, foram retratadas como estereótipos ou em uma versão fantasiosa.

“Cleópatra foi uma poeta e uma filósofa, ela era incrivelmente boa em matemática; ela não era muito bonita. Mas quando pensamos nela, nós pensamos: sedutora peituda tomando banho em leite. Muitas vezes, mesmo quando mulheres deixaram a sua marca e são lembradas pela história, nos é oferecida uma versão de fantasia de suas vidas”. – Dra. Bettany Hughes

Em 2014, a escritora Kameron Hurley ganhou um Prêmio Hugo na categoria Best Related Work com o ensaio “We have always fought”: challenging the “women, cattle and slaves” narrative, traduzido pela escritora Camila Fernandes em 2016 e publicado no seu blog. Kameron discorre sobre o apagamento das mulheres na história e sobre a reprodução dessa narrativa no nosso dia a dia, inclusive na ficção. As mulheres são retratadas como parte do cenário ou, no máximo, como elemento narrativo para o desenvolvimento dos personagens masculinos, são como gado ou como escravos. Como vemos a mulher tratada do mesmo modo a todo momento no cinema, na televisão e nos livros, tendemos a reproduzir essa visão quando chega a nossa vez de escrevermos. Um clichê pernicioso é o do estupro da mulher amada que serve de estopim para a vingança do personagem masculino, ou então para a disputa entre dois personagens masculinos sobre a responsabilidade por “deixar” acontecer tal coisa.

“Esquecemos sobre que é a história. Em nossas histórias, em nossa própria vida, apagamos as mulheres poderosas, decididas, inteligentes e aterrorizantes. As mulheres atacam e mutilam e matam e lideram e gerenciam e conquistam e fogem. Nós sabemos. Presenciamos isso todo dia. Vemos isso.

Mas esta é a nossa narrativa: dois homens brigando aos berros numa sala, e uma mulher fungando num cantinho”. – Kameron Hurley

Como a mulher é corriqueiramente retratada como parte integrante do cenário ou como mera motivação de outros personagens, as que escapam desse modelo são mostradas como algo fora da curva, fora do padrão. Ora, se uma mulher que escapa do estereótipo é uma pessoa excepcional, isso apenas reforça a natureza “comum” das demais mulheres, que devem ou estão integradas da maneira “esperada” na sociedade.

“Ao crescer, aprendi que as mulheres cumpriam certos tipos de papel e faziam certos tipos de coisas. Não é que eu não tivesse ótimos modelos de comportamento. As mulheres da minha família foram matriarcas e trabalhadoras. Mas as histórias que eu via na TV, no cinema e até nos livros diziam que elas eram anomalias. Elas eram lhamas peludinhas e não canibais. Muito raras.

Mas as histórias estavam todas erradas”. – Kameron Hurley

Kameron relata uma conversa que teve com um professor em Durban, na África do Sul, sobre a tese de mestrado que queria escrever. Ele lhe perguntou por que queria escrever sobre as mulheres combatentes da resistência. Ela respondeu que quase não conseguiu acreditar quando descobriu que as mulheres compunham mais de vinte por cento da ala militante do Congresso Nacional Africano, já que as mulheres nunca tinham sido parte das forças combatentes. O professor a interrompeu e abriu-lhe um novo mundo quando disse que as mulheres sempre lutaram, que Shaka Zulu, por exemplo, tinha uma força combatente composta só por mulheres, e que as mulheres sempre participaram de todas as guerras.

“Eu não tinha ideia do que responder. Tinha sido educada no sistema escolar norte-americano com uma dieta regular de teoria sobre os Grandes Homens da História. A História está cheia de Grandes Homens. Tive que fazer cursos separados de História das Mulheres só para aprender sobre o que elas estavam fazendo enquanto todos os homens se matavam. Entendi que muitas delas estavam governando países e descobrindo métodos mais eficazes de controle da natalidade que tiveram amplas consequências na criação de estados específicos, especialmente a Grécia e Roma”. – Kameron Hurley

Recentemente, duas turistas argentinas foram assassinadas no Equador. Maria José Coni e Marina Menegazzo, amigas, haviam decidido mochilar pela América do Sul. O caso ainda está sob investigação e, até onde sei pelos jornais, pelo menos uma delas foi morta por um homem que tentou abusar-lhe sexualmente. Muitos criticaram-nas por viajarem “sozinhas”, ou seja, sem a companhia de um homem. Maria e Marina só queriam conhecer a América Latina da Argentina ao Peru; eram amigas e estavam realizando um sonho, talvez o tivessem desde crianças. Porém, tiveram o “azar” de nascerem mulheres e estarem “sozinhas”; “pediram” para morrer, assim como muitas mulheres são estupradas todos os dias porque “pediram” por isso. Elas deixaram de ser tratadas como protagonistas da própria vida, mas apenas como duas peças que foram deixadas desprotegidas por aqueles que deveriam fazê-lo, os homens, provavelmente os homens da família ou amigos próximos.

Guadalupe Acosta, uma estudante de Comunicação paraguaia, escreveu um texto sobre o episódio: Ontem me mataram. Ela critica as perguntas estúpidas e impertinentes sobre o episódio, perguntas sobre as roupas que usavam, por que viajavam “sozinhas”, por que estavam na casa dos acusados pelos homicídios.

“[…]

A partir do momento que viram meu corpo inerte, ninguém se perguntou onde estava o filho da puta que acabou com meus sonhos, minhas esperanças, minha vida.

Não, preferiram começar a me fazer perguntas inúteis. A mim, podem imaginar? Uma morta, que não pode falar, que não pode se defender.

Que roupa estava usando?

Por que estava sozinha?

Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Você se enfiou em um bairro perigoso. Esperava o quê?

Questionaram meus pais, por me darem asas, por deixarem que eu fosse independente, como qualquer ser humano. Disseram a eles que com certeza estávamos drogadas e procuramos, que alguma coisa fizemos, que deviam ter nos vigiado.

E só morta entendi que para o mundo eu não sou igual um homem. Que morrer foi minha culpa, que sempre vai ser. Enquanto que se o título dissesse“foram mortos dois jovens viajantes”as pessoas estariam oferecendo suas condolências e, com seu falso e hipócrita discurso de falsa moral, pediriam pena maior para os assassinos.

Mas, por ser mulher, é minimizado. Torna-se menos grave porque, claro, eu procurei. Fazendo o que queria, encontrei o que merecia por não ser submissa, por não querer ficar em casa, por investir meu próprio dinheiro em meus sonhos. Por isso e por muito mais, me condenaram”. – Guadalupe Acosta

Se vemos e lemos a mesma narrativa com frequência, é natural que tenhamos a tendência de reproduzi-la. Mas isso é preguiçoso e tem de mudar. As mulheres são pessoas como a outra metade do mundo, cada uma protagonizando a própria história, com desejos, sonhos, ambições, motivações, amores e tristezas. Elas não são “putas”, “vagabundas”, “vadias”, “esposas”, “mães” ou “filhas”, mas viajantes, estudantes, escritoras, astronautas, caminhoneiras, advogadas. São seres humanos, e não parte do cenário, tampouco objeto de disputa ou de motivação de personagens masculinos. Elas são e sempre foram protagonistas e assim devem ser retratadas, tanto na ficção como na história.


Vale a pena ler os seguintes textos:

Why were women written out of History? An interview with Bettany Hughes – English Heritage Blog

“Nós sempre lutamos”: desafiando a narrativa de “mulheres, gado e escravos”Kameron Hurley (Tradução de Camila Fernandes)

“Ontem me mataram”, a carta em memória das duas viajantes assassinadas no Equador – El País

#ViajoSozinha: Como a morte de duas turistas argentinas levou a debate sobre assédioGlobo.com


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